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Sayed Hassan Nasrallah: “Fim da ilusão ‘Dois Estados’ anuncia a libertação da Palestina”

Publicado por: Redação Irã News
Autor:
Publicada em 17/03/2017 às 08:26
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lider Foto:
Discurso do Secretário Geral do Hezbollah
Na homenagem anual aos dirigentes mártires. Vídeo, versão original em árabe, legendada em francês, texto transcrito e traduzido ao francês, por Sayed Hassan. Aqui traduzido ao português (2ª.parte)
[…] Bem… e o segundo ponto é a questão israelense, do ponto de vista palestino.

O que se passa atualmente? Israel prossegue no processo de judeização em velocidade máxima. A judeização de Al-Quds (Jerusalém), a expulsão dos habitantes, a construção de mais e mais colônias, para modificar a identidade da cidade e separá-la da Cisjordânia, até a proibição da chamada para as orações, projeto do governo de Netanyahu adotado pelo Parlamento [Knesset], até a lei que legaliza o roubo de terras palestinas na Cisjordânia, com o prosseguimento da construção de milhares de casas na Cisjordânia, o prosseguimento quotidiano de assassinatos, prisões e demolição de casas, destruição de plantações e, agora, com Trump, a transferência da embaixada dos EUA, de Telavive para Jerusalém. A intenção aí é confirmar que Jerusalém seria capital eterna daquela entidade usurpadora.

A evidência de que os norte-americanos abandonem a solução dos Dois Estado tem significado específico para nós, como resistência. Mas essa solução representava a única esperança para a via de negociações e para os que acreditavam nessa via. Os norte-americanos, Trump disse ontem que não pressionarão Israel. “Deixemos que os palestinos negociem diretamente e entendam-se (com Israel). O que significa isso? Significa “Entendam-se lá com eles, e boa sorte”.

Israel, sem pressão dos norte-americanos, sem pressão internacional, sem pressão dos árabes, sem pressão de tipo algum? Esses sionistas lá, com a cultura deles, suas ambições, seus apetites, seu desprezo e sua arrogância… o que darão [se não forem pressionados] aos palestinos, além de migalhas, via ‘negociações’? “Entendam-se lá” significa exatamente isso.

Hoje, depois do que já transpirou do encontro entre Netanyahu e Trump, verdade é que não exagero ao dizer que ontem foi anunciada, de modo quase oficial, a morte da via das negociações. São os funerais. A questão está terminada. Para os israelenses, o Estado palestino não existe (e não poderá jamais existir). Nas conversações (realizadas em Israel) no início do ano e das quais acabo de lhes falar, nas quais se manifestaram ministros, generais, personalidades, etc., em todos aqueles discursos, não houve sequer uma menção ao Estado palestino, para eles inexistente e inconcebível.

Já há alguns anos dizíamos, e recordo aqui o que nós dizíamos. O projeto israelense para a Palestina e para os palestinos é: fiquem com Gaza – claro, aquela Gaza que continuará sitiada, sem porto, sem aeroporto, sem fronteira –, mas fiquem com Gaza, porque Gaza atrairia escândalo sobre os sionistas. Quanto ao restante da Palestina, é para os sionistas. O máximo que podemos ceder, na Cisjordânia é uma autonomia administrativa controlada, limitada e descontínua que agora será recortada por milhares de casas e acabou-se a conversa. Os palestinos da diáspora (refugiados) que se naturalizem ou emigrem. Que arranjem cidadania no Líbano, na Síria, na Jordânia, por todos os países onde estão, ou emigrem para onde possam. E todo o mundo sabe que a nacionalidade é proposta aos palestinos, precisamente para que partam. E isso é o máximo que Israel pode conceder. Uma autonomia administrativa limitada e descontínua na Cisjordânia. Ainda ontem, os próprios israelenses, eles mesmos falavam das etapas finais da resolução definitiva da causa palestina. Infelizmente, não há aí nenhum exagero.

Então, hoje, agora que o princípio e a base da resolução da Iniciativa de Paz Árabe de 2002, que repousava sobre a ideia de Dois Estados, agora que essa base já não existe, agora que foi suprimida, rejeitada… O que dizem agora os dirigentes árabes, os regimes árabes, os governos árabes, a União dos países árabes? Os autores da iniciativa de paz disseram (em tom de ameaça) que a proposta está sobre a mesa, mas não permanecerá lá por muito tempo. Será que ainda está sobre a mesa? Será que, seja como for, a tal proposta existe? Quem reconhece a proposta?

 
Claro que os israelenses, agora que chegam à fase em que dizem que estão assistindo aos últimos instantes da causa palestina que tanto se empenham em liquidar. Porque Israel, apesar de tudo que Obama fez por eles, agora diz que Trump é melhor. Sim, mas… E quanto aos árabes, aos países árabes? Onde está a pressão árabe? Ao contrário, o que se vê é uma correria na direção de relações por baixo da mesa com Israel e, por cima da mesa, sem qualquer vacilação, uma ‘normalização’ árabe e os países do Golfo, montando relações com Israel, exceto uns poucos países árabes. Tudo é ‘normalização’. Delegações israelenses no Bahrain e em alguns países árabes, e dançam e cantam e cruzam espadas de um lado para outro e, no Bahrain, não hesitam, esses sionistas, em declarar que “Destruiremos a mesquita [al-Aqsa] e (re)construiremos o templo”. E todos esses árabes sentados ali ao lado deles, dançando com eles, esses bahrainis que são muito mais próximos do poder, esses imbecis ignorantes, não entendem sequer o que eles próprios dizem. Minha avaliação é que, ainda que compreendessem  tudo, nada mudaria, porque já não há coisa alguma que tenha real valor aos olhos desses regimes árabes e seus seguidores.
 
Ontem, ergueu-se uma voz estranha, e muitos provavelmente se perguntaram “Mas… De onde saiu esse sujeito? Vem de que planeta?” Quando, por exemplo, Sua Excelência o presidente da República libanesa, general Michel Aoun, compareceu à reunião dos países árabes. Acho que realmente os perturbou, porque lhes falou de Al-Quds [Jerusalém] e dos locais sagrados islâmicos e cristãos. E claro que os perturbou, porque os obrigou a lembrar da responsabilidade que têm, como países árabes e como árabes, em relação à Palestina e aos locais sagrados. E perturbou-os, não há dúvidas, porque lhes falou da Resistência, antes de partir e depois de ter partido. Claro que os envergonhou, porque lhes disse que o pensamento sionista conseguiu converter a guerra, que começou como confronto árabe-israelense, em confronto de árabe contra árabe. E disse que eles têm de resolver esse problema. “A quem recitas teus salmos, ô David ?” [Referência aos indiferentes, no sentido de “De que adianta dizer alguma coisa a essa gente?” (NTs)].

Nessas deploráveis circunstâncias árabes, sim, os israelenses têm razão quando falam de situação estratégica excelente e confiável, e Netanyahu tinha razão ao dizer ontem que jamais antes, em toda a vida dele, sentiu, como sente hoje, que os países árabes não veem Israel como inimiga, mas como aliada. Essa fala de Netanyahu é uma marca de infâmia gravada na testa da maioria daqueles dirigentes, daqueles reis, emires e presidentes árabes. A maioria deles – há exceções, claro, de alguns dirigentes e presidentes que têm posição diferente e pagam o preço. Não é, mesmo, uma marca de infâmia?

O que diz sobre isso o povo palestino? O que dizem todas as facções da Resistência palestina, todas elas, as que acreditam na Resistência e as que creem em negociações? O que dizem disso os milhões de palestinos da Diáspora? O que dizem disso os árabes que ainda tenham neles mesmos algum resto de honra, de dignidade, de arabidade e de nobreza? Onde está a “posição árabe”? Onde está a “resposta árabe”? Não há respostas.

A resposta árabe aparece noutro terreno: mais matança no Iêmen e no Bahrain, mais complôs contra a Síria e o Iraque, mais tentativas de arranjar alianças para fazer guerra à República Islâmica do Irã… Aí estão, muito ativos, hoje, os dirigentes árabes.

Assim sendo… Que escolhas restam aos palestinos? Nem por isso podemos desesperar, não, de modo algum!

Quero dizer ao povo palestino nessa cerimônia de homenagem aos seus dirigentes e mártires do Hezbollah, que tanto amaram e prestigiaram a Palestina. Como Sayed Abbas (al-Musawi), como o Xeique Ragheb (Harb), como Hajj Imad (Mughnieh). Esses foram mais palestinos que libaneses. Sayed Abbas era mais palestino que libanês, e os palestinos sabem disso. O Hajj Imad foi também homem desse tipo, Xeique Ragheb, também. Nesse dia em que homenageamos os dirigentes da Resistência, que tanto amaram a Palestina, que tanto a honraram e tanto lutaram por ela, pela causa da Palestina, pela esperança dos palestinos, digo ao povo palestino: nada disso nos deve levar a desesperar,

O fato de que as máscaras caiam é positivo e muito importante. “Se tivessem lutado ao lado de vocês, só teriam aumentado a dificuldade da luta [e teriam, com suas manobras, semeado a discórdia nas fileiras de vocês]” (Corão, 9, 47). É sim, muito importante, que caiam as máscaras, que os hipócritas deixem-se ver afinal, depois de terem mentido ao longo de décadas, fingindo que apoiavam a Palestina, o povo palestino e a causa palestina. Por que é importante? Porque esclarece as coisa e purifica e limpa as fileiras da Resistência. Só permanecem os sérios. Os covardes, os traidores, os agentes do inimigo, os espiões e oportunistas são afinal descartados.

É o que diz ao povo palestino e aos povos da região: os que ficam (ao lado de vocês) são a quintessência, já passados por todas as provas e todas as dificuldades. Esses vão libertar a Palestina e modelar a vitória.

Sem desespero. Ao contrário, tudo isso deve ser fonte de esperança, saber que as fileiras vão sendo purificadas. Eles que se vão daqui para sempre! Basta!

Não fizeram outra coisa que não fosse mentir aos povos árabes, aos seus povos e ao povo palestino. Declaram que aceitam Israel. Que normalizam as relações com Israel, que são aliados de Israel, que Israel deixou de ser inimiga… Pois muito bem. Eles que respondam, então, a Netanyahu! Se lhes restar uma onça de honra, de força, de dignidade! Que esses reis, esses emires e seus presidentes árabes digam a Netanyahu “Não, tu mentes, tu ainda és nosso inimigo. Tu não te tornaste aliado nosso.” Mas nada dirão. Não têm coragem.

[Perdoem-me. Sem querer, pus-me a falar no dialeto (libanês), com palavras que usamos quando conversamos em casa, entre nós.]

Tudo o que vemos hoje não nos deve levar ao desespero, mas deve fazer crescer a esperança.

O povo palestino de modo algum deve render-se. Nunca. Recusar a rendição, insistir e fazer crescer a Resistência, ter fé na Resistência, persistir na Resistência, ter fé na Resistência, confiança na escolha pela Resistência, na certeza de que a Resistência nos leva às vitórias. A Resistência libertou o Líbano, libertou Gaza, as experiências da história da resistência popular – em nossos dias e ao longo dos séculos. – É só questão de tempo, de perseverança, de convicção e de firmeza. O povo palestino acumula experiência de inestimável valor, em matéria de resistência.

Dentre as formas de Resistência, as mais importantes que se veem hoje na Palestina, há a Intifada de al-Quds (Jerusalém), que deve continuar. Essas operações individuais são umas das formas mais importantes da Resistência. Das mais importantes e das maiores. Porque se trata de um indivíduo, que não pertence a grupo nem a qualquer organização. Seja quem for, o indivíduo decide sobre a própria ação, sobre a própria operação, tem seu plano, define o objetivo da ação e executa o que planejou. Quem conseguirá impedi-lo? Não há operação [israelense] de prevenção que consiga impedir a ação de um homem determinado. Digo “um homem”, mas falo de todos – homem, mulher, jovem, agricultor, estudante, professor, etc., nascidos e criados nos mais diferentes meios sociais. Isso precisamente é o que aterroriza o inimigo e sacode a entidade sionista, como um terremoto.

Vocês, palestinos, têm essa fé, esse espírito de Resistência, esse formidável entusiasmo que até hoje se manifestam nos jovens, mulheres e homens da Palestina, na Intifada de Al-Quds (Jerusalém).

Por fim, quero reafirmar ao nosso povo palestino que a região não será para sempre o que é hoje. E que o mundo não será para sempre o que é hoje. Os EUA de Trump já não são os EUA de George Bush, e o exército dos EUA já não é o que chegou aqui para invadir nossos países, há décadas. Quando eles chegaram, toda a região mudou. Os projetos evaporam-se e fracassam, e do coração das provações, dos levantes, contra golpes e complôs, nascem gerações e gerações de combatentes (mudjahidins), de homens e mulheres da Resistência, de fiéis, que modelarão para todos nós a vitória decisiva, como a modelam já todos os dias, e eles e elas mudarão a face dessa região.

O horizonte é radioso, o futuro é promissor. E tudo o que hoje vemos acontecer não é de modo algum a liquidação da causa palestina! Jamais! O que vemos é a liquidação dos hipócritas que tanto mentiram ao povo palestino. Ninguém pode liquidar a causa palestina. Ninguém poderá pôr-lhe um fim.

Confiem em Deus, com confiança forte, confiem em vocês mesmos, nos seus jovens, homens e mulheres, confiem neles com firme confiança. E que essa Resistência, suas ações, sua capacidade de luta, a perseverança de todos em nome de Deus, na via indicada por Deus, sob os olhos de Deus. E Deus, Alto e Misericordioso nunca falta ao que nos promete. Ele nos prometeu a vitória aos combatentes pacientes, sinceros e resistentes. E Deus sempre cumpre o que promete [fim do excerto transcrito].*****

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